Cosmologia e a hipótese de Deus

Este breve exame sobre a natureza do universo leva a considerar a admissão da hipótese de Deus de uma maneira mais geral.

Recordo-me do Salmo 19, em que Davi escreve:

“Os céus proclamam a glória de Deus e o firmamento anuncia as obras de Tuas mãos”.

Nebulosa de Orion, telescopio Hubble

Nebulosa de Órion

É claro que a visão de mundo científica não é totalmente suficiente para responder a todas questões interessantes sobre a origem do universo e não há nada essencialmente em conflito entre a idéia de um Deus criador e o que a ciência revelou.

Na verdade, a hipótese de Deus soluciona algumas questões de profundidade mais problemática sobre o que veio antes do Big Bang e por que o universo parece tão exatamente acertado para que estejamos aqui.

Big-Bang

Big Bang

Para o teísta, que é guiado pelo argumento da Lei Moral, buscar um Deus que não só enxerga o universo em movimento, mas também se interessa pelos seres humanos, uma síntese como essa pode ser prontamente alcançada.

A argumentação seria algo assim:

a) Se Deus existe, é sobrenatural.

b) Se Ele é sobrenatural, não é limitado pelas leis naturais.

c) Se não é limitado pelas leis naturais, não há motivo para que seja limitado pelo tempo.

d) Se não é limitado pelo tempo, Ele está no passado, no presente e no futuro.

A conseqüência dessas conclusões seria:

1) Ele poderia existir antes do Big Bang e depois que o universo sumisse, caso isso viesse a acontecer.

2) Ele poderia saber o resultado exato da formação do universo antes de este ter começado.

3) Ele saberia de antemão se um planeta próximo das margens externas de uma galáxia espiral comum poderia ter as características certas para permitir a vida.

4) Ele saberia poder antecipação que tal planeta levaria ao desenvolvimento de criaturas conscientes, por meio de mecanismos de evolução e seleção natural.

5) Ele poderia também saber, antecipadamente, os pensamentos e ações dessas criaturas, mesmo se estas tivessem livre-arbítrio.

(…) A síntese da proposta não pretende atenuar todos os desafios e áreas de desavença. Aqueles que acreditam em determinadas religiões do mundo na certa acham dificuldades específicas em alguns dos detalhes sobre a origem do universo prevista pela ciência.

Einstein

Albert Einstein

Deístas como Einstein, de acordo com os quais Deus iniciou todos os processos, porém, em seguida, deixou de prestar atenção aos desenvolvimentos posteriores, sentem-se em geral à vontade com as conclusões recentes da Física e da Cosmologia, com a possível exceção do princípio da incerteza. No entanto, o grau de conforto das religiões teístas mais importantes apresenta algum tipo de variável. A idéia de um começo do universo não têm correspondência total com o budismobuda , de acordo com o qual um universo oscilante seria mais compatível. Contudo, os ramos teístas do hinduísmo não entram em grandes conflitos com o Big Bang. Nem a maioria dos intérpretes do Islã.

Para a tradição judaico-cristã, as palavras de abertura do Gênesis “No princípio, Deus criou os céus e a Terra” são totalmente compatíveis com o Big Bang. Em um exemplo notável, o papa Pio XII, da Igreja Católica Romana, deu um sólido apoio às teorias do Big Bang mesmo antes que suas escoras científicas fossem bem estabelecidas.

Pio XIIPapa Pio XII

Nem todas as interpretações cristãs, porém, deram tanto respaldo a essa visão científica do universo. Os que interpretam o Gênesis em termos completamente literais concluem que a Terra tem apenas 6 mil anos de existência e, portanto, rejeitam a maior parte das conclusões já citadas. A postura deles é, de certa forma, compreensível como um apelo à verdade: os que professam uma religião que se encontra escorada por textos sagrados fazem objeção diretamente a interpretações imprecisas de seus significados.

Textos que parecem narrar eventos históricos devem ser interpretados como alegorias somente se evidências fortes exigirem isso.

Mas o livro de Gênesis encontra-se nessa categoria?

Sem dúvida alguma, a linguem é poética.

Ele apresenta licença poética?

Não se trata de uma questão do mundo moderno: ao longo da história debates alastraram-se entre os que defendiam ou não a interpretação literal.

Santo Agostinho

Santo Agostinho – Janela do Lightner Museum

Santo Agostinho, provavelmente em dos maiores intelectuais religiosos, tinha especial consciência dos riscos de transformar textos bíblicos em obras científicas exatas e escreveu, referindo-se especificamente ao Gênesis:

Em questões tão obscuras e que se acham muito além de nossa visão, encontramos, nas Sagradas Escrituras, passagens que podem ser interpretadas nas mais diversas formas, sem prejuízo à fé que recebemos. Em tais casos, não devemos nos precipitar e assumir uma posição tão firme sobre um lado que, caso um futuro progresso na busca pela verdade abale esta posição, nós também venhamos a cair com ela.”

(Santo Agostinho, Comentário ao Gênesis, 1:41)

Os conflitos potenciais entre a CIÊNCIA e a FÉ, pelo menos como são percebidos, continuarão aparecendo. Contudo, se pusermos em prática o conselho de Santo Agostinho de maneira sábia, elaborado mais de mil anos antes que houvesse algum motivo para pedir desculpas a Darwin, seremos capazes de encontrar uma harmonia consistente e profundamente satisfatória entre ambas as visões de mundo.

REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA

COLLINS, Francis C. A linguagem de Deus: Um cientista apresenta evidências de que Ele existe. São Paulo, Ed. Gente, 2007. 278 p.

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