Recapitulando nossos estudos, na PARTE I vimos a sequência dos reinados e avaliamos a datação encontrada nos tabletes, comparando com a Bíblica, analisamos de acordo com a Teoria de Rehwinkel e conseguimos encontrar um valor muito próximo ao descrito na Bíblia.
Na PARTE II de nosso estudo, analisamos com critério a etimologia dos nomes encontrados dos tabletes cuneiformes, no escritos de Beroso e na Bíblia, comparamos os mesmo a descrição da genealogia em gênesis e encontramos similaridades incríveis.
Nos acompanhe então, nesta terceira e última parte deste estudo, com o título:
ENTÃO VEIO O DILÚVIO...
A mais antiga versão do Dilúvio que conhecemos vem de um tablete bastante danificado que conta a história de um certo herói chamado Ziusudra. Infelizmente mais de 80% do texto encontra-se perdido e, como resultado, a maior parte da história é obscura e difícil de ser resgatada. Apenas umas poucas passagens podem ser lidas com certo grau de certeza e, pelo que sabemos, trata-se do relato de uma imensa inundação que há tempos abateu sobre o planeta Terra, mais Ziusudra conseguiu sobreviver a ela.
Outras versões, no entanto, estão bem mais preservadas que esse épico e seu achado ajudou bastante na reconstrução dos antigos relatos sumerianos acerca do
Dilúvio. O mais completo e bem conhecido é o "épico de Gilgamesh". Ele foi encontrado por Hormuzd Rassam que substituiu o pioneiro Henry Layard nas escavações de Nínive, em 1852.
Após dois anos de árduo trabalho desenterrando os alicerces do palácio de Assurbanipal, Rassam foi recompensado com o achado da biblioteca real, a qual continha mais de 30 mil tabletes de argila reunindo o conhecimento milenar de povos do Tigre e Eufrates. Embora os documentos fossem datados do 7º século a.C. ficou claro que muitos deles (inclusive o épico de Gilgamesh) eram cópias de materiais muito mais antigos que remontavam a uma tradição do segundo milênio antes de Cristo.
A história é longa e o que nos interessa está no tablete n.º 11 da coleção. Ela diz que Gilgamesh tinha um amigo chamado Utnapishtim que ganhara a imortalidade e, semelhante ao Noé bíblico, conseguiu sobreviver às águas do Dilúvio. Ele havia sido previamente avisado pelo deus Ea (7) (senhor das águas e criador da humanidade) que uma imensa inundação se abateria sobre os homens. Assim, caso quisesse se salvar, Utnapishtim deveria construir uma embarcação de madeira e piche, capaz de carregar a semente da vida de cada espécie.
Finalmente, o barco ficou pronto e Utnapishtim, munido de todos os seus tesouros, entrou a bordo do barco com sua família, seus artesãos e os animais que havia recolhido. Então fechou a porta e aguardou. Finalmente, uma torrencial tempestade caiu sobre a Terra durando seis dias sem parar. O desastre foi tão imenso que até os deuses ficaram assustados e fugiram para os lugares mais altos dos céus que ficavam na montanha celeste de Anu. Eles se encolhiam como cães assustados.
No sétimo dia após o início da tempestade, o barco encalhou no topo do monte Nissir (no Curdistão) e ali permaneceu por mais seis dias. No sétimo dia, Utnapishtim solta uma pomba para ver se as águas haviam baixado, mas ela retornou, pois não havia encontrado terra firme.
Seguro de que as águas haviam baixado, Utnapishtim saiu da arca com os animais e seus companheiros e, imediatamente, ofereceu um cordeiro aos deuses que respiraram a fumaça do sacrifício e se mostraram satisfeitos.
Quando essa história foi publicada pela primeira vez em 1872 houve um grande alvoroço na Europa, pois recentemente,
em 1859, Charles Darwin, havia publicado a primeira edição do best-seller Origem das espécies que mudou completamente a visão de muitos eruditos acerca do Gênesis. Para eles, toda história do Dilúvio não passava de um "conto judaico" e nada mais. Porém, então, evidências fora da Bíblia indicavam que o relato de Gênesis capítulos 6 a 9 era mais universal do que se imaginava, e não podia ser, de maneira alguma, criação de um autor hebreu.
Outra versão ainda mais antiga do Dilúvio foi recuperada a partir de vários fragmentos encontrados ao longo de 78 anos (1889-1967) em vários sítios arqueológicos da Mesopotâmia. Ela data do reinado de Ammisaduqa, que governou Sippar de 1646 a 1626 a.C., e é seguramente, anterior a Moisés.
Nela, o herói diluviano é Atrahasis, como no relato do Épico de Gilgamesh, ele é avisado pelo deus Enki (outro nome para Ea) de que a Terra seria destruída por causa do barulho que os homens faziam não permitindo que os deuses Enlil descansasse em paz. As pragas e a fome foram enviadas primeiro e, finalmente, derramou-se um grande Dilúvio. Obediente às instruções de Enki, Atrahasis, sua família e vários tipos de animais sobrevivem à inundação através de um barco que o próprio herói construiu.
Nota-se, portanto, que os sumerianos criam que um grande Dilúvio havia ocorrido num remoto período da sua história. O relato do Gênesis não é imaginação gratuita de Moisés. Além disso, embora não tenhamos espaço para abordar todas as versões do Dilívio, é importante dizer que não se trata (como alguns minimalistas fazem supor) de uma mera lenda mesopotâmica ecoada pelo autor bíblico. Essa mesma história de uma inundação universal permeia dezenas de culturas fora da Mesopotâmia. Estudos antropológicos estão repletos de relatórios sobre cerimônias religiosas ligadas a esse acontecimento que podem ser vistas em tradições milenares da Índia, China, Egito e México. Tribos africanas e índios (tanto americanos quanto andinos e brasileiros) também demonstram conhecer o fato de que um dia o mundo esteve submerso sob as águas, e isso, antes de qualquer contato com missionários ou detentores da tradição bíblica.
Referências:
(7) Ea as vezes é chamado de Enki.
P.S.: Todo o mérito destes estudos (Parte I, II e II) devem ser creditados ao Dr. Rodrigo P. Silva em Escavando a Verdade: A Arqueologia e as incríveis histórias da Bíblia (CPB: 2007), p.62-70.











