José no Egito – Parte I

Mais uma vez peço permissão ao Dr. Rodrigo P. Silva para extrair de sua obra “Escavando a verdade” este capítulo:

A história de José é uma das sagas mais famosas do Antigo Testamento. Vítima de seus próprios irmãos, ele teve sua túnica rasgada, foi vendido como escrado e levado para o Egito. Uma vez lá, foi injustamente para a prisão, mas terminou liberto e promovido a primeiro-ministro, após decifrar um obscuro sonho do faraó que previa fome no país. Essa é uma história maravilhosa que mostra a providência divina na vida de um homem sofredor.

Jose no Egito

José perante Potifar no Egito

As rivalidades entre irmãos de José podem ser compreendidas à luz da poligamia praticada na época, especialmente por chefes tribais nômades como Jacó. Um homem que possuísse várias esposas, era respeitado, pois, além de ser pai de uma grande prole, demonstrava ter recurso para sustentar várias famílias.[1]

Não obstante, ele tinha de lidar com o problema de que cada uma de suas mulheres gostaria que o seu filho e não o da outra fosse o sucessor do pai na chefia do clã. Devemos nos lembrar que José era filho de uma segunda esposa, assim como Benjamim depois dele. E o curioso é que o ápice da rivalidade entre ele e seus irmãos parece ter sido por causa de uma comprida túnica de muitas cores que Jacó lhe havia presenteado.[2] No dia em que viram José vestido com o novo traje, decidiram que ele deveria ser morto. Por que uma simples roupa incitaria tamanho ódio? Um presente tão simples seria motivo de tanta inveja?

Tudo isso e muito mais nós veremos na série de estudos que se seguem com o título JOSÉ NO EGITO. Espero que aproveitem este e os próximos artigos que virão na sequência e que o entendimento faça morada em suas mentes. É o que desejo…

I.1. CONTEXTO HISTÓRICO

Para nós ocidentais a trama desse relato pode parecer um tanto confusa. Mas ela deve ser vista sob o pano de fundo dos costumes orientais. Mesmo numa rápida visita aos mercados do Oriente Médio é possível observar as peças de tecelagem fabricadas de modo artesanal como nos tempos bíblicos. Ainda hoje no moderno mundo árabe costuma-se dar muita importância aos tecidos coloridos que são um fino presente para as mulheres. Nos tempos antigos, porém, as cores e o comprimento de uma roupa tinham um significado político bem mais acentuado.

Tapete árabe

Exemplo de cores num tapete árabe

I.2. EVIDÊNCIAS ARQUEOLÓGICAS

Há mais ou menos 100 km ao sul do Cairo, encontramos uma pequena vila chamada Beni Hassan que fica à margem leste do rio Nilo. Ali existem várias tumbas remotas, pertencentes aos governantes e políticos que viveram no Egito durante a 12° Dinastia (cerca de 1800 a.C.).

Beni Hassan (Khnumhotep) 3Vista interna da tumba de Khnumhotep

As paredes de cada uma delas estão decoradas com cenas da vida diária e uma em especial talvez nos ajude a esclarecer porque a túnica de José provocou a ira de seus irmãos. O desenho do túmulo, que você pode ver a seguir, traz a figura de oito homens, quatro mulheres e três crianças acompanhados por animais de carga e guiados por oficiais do Alto Egito.

Beni Hassan 02

Parede egípcia pintada em uma tumba de Beni Hassan, descrevendo a chegada de nômades semitas no Egito, em 1895 a.C. [3]

O texto hieroglífico do alto da parede dá a descrição de um fato e seu significado. Ele diz que aquelas pessoas faziam parte de um grupo de 37 asiáticos que haviam vindo da região de Shut (que inclui Canaã) para comprar alimentos dos egípcios. O Chefe do grupo se chamava Abissai, que é um nome tão semita quanto Jacó, Benjamim e Judá. Toda a parte desse período mostra os egípcios sem barba e os cananeus com barba.

Só o fato de descerem ao Egito para negociar comida valida historicamente a atitude dos filhos de Jacó de seguirem até o território egípcio a fim de comprar mantimento, pois havia grave fome na terra (Gênesis 42). Mas o que nos interessa são as túnicas multicoloridas que alguns deles apresentam. Elas parecem concordar com a tradução de Gênesis 37:3 que menciona as vestes de José como sendo “de muitas cores”.

A figura mostra dois tipos principais de vestimenta; os dois são listrados e cada listra tem uma cor distinta. Há também desenhos dentro das listras, o que aumenta a originalidade, beleza, e importância do traje. Ambos representam o tipo de vestimenta que José poderia ter usado, segundo a descrição da Bíblia.

I.3. A TÚNICA

Se proceder o fato de que, além de muitas cores, a veste de José tambem tivesse mangas compridas conforme deduzem a maioria dos tradutores, então temos de compreender que não se tratavam de vestes comuns. Afinal de contas esse não era um tipo de roupa adequado para o trabalho manual ou pastoril.

Além disso, convém lembrar que as cores no antigo oriente eram um artigo muito precioso. Hoje temos uma miriade de matizes, pois desenvolvemos nossas colorações através de produtos químicos que não desbotam e permitem criar várias tonalidades diferentes.

roda-de-coresRoda-de-cores

Mas na antiguidade a situação era completamente diferente, porque cada tipo de tintura disponível era proveniente de produtos naturais. Assim, algumas cores eram mais complicadas de se obter que outras. Os tons mais raros (e, portanto, bastante caros) eram o vermelho e o púrpura; cores, aliás, usadas pelos viajantes semitas pintados em Beni Hassan.

Cornfield e Freedman [4] sugerem que a vestimenta nova de José poderia ser uma espécie de túnica ornamental usada por sacerdotes e divindades no antigo Oriente Médio. De fato, textos cuneiformes referem-se a uma vestimenta cerimonial chamada kutinnu pishannu que era usada pelos governantes sacerdotais e enrolada nas estatuetas das divindades. Elas eram cheias de adornos, simbolizando a soberania daquele que as vestia. Note-se que sua designação em acadiano (kutinnu pishannu) lembra muito de perto o termo hebraico usado para referir-se à túnica recebida por josé. O Gênesis a chama de ketonet passim.

José no Egito, kutinnu pishannu

Vestimenta de José (ketonet passim)

Deduzimos, portanto, que ganhar uma vestimenta especial (provavelmente tingida de cores raras e enriquecida com adornos) foi uma mensagem para os irmãos de José. Significava que ele era o favorito de Jacó para ocupar a chefia do grupo após sua morte. Logo, era de se esperar que quisessem se livrar dele.

[ipsis litteris]

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REFERÊNCIAS TEXTUAIS:

[1] – Jesus, é claro, não parece ter endossado esse tipo de prática ao sancionar para os discípulos o ideal da monogamia. Essa idéia perpassou para várias passagens do Novo Testamento (Mt 19:3-9; Mc 10:1-12; ICo 6:16; Ef 5:22-33; ITm 3:2). Dos diáconos e outros lideres da Igreja cristã esperava-se a monogamia que, aliás, já parecia desencorajada em Israel desde os tempos pós-exílicos.

[2] – Algumas versões em português traduzem “túnica talar de mangas compridas” ao invés da “túnica multicolorida”. Ambas as traduções parecem possíveis ao termo pasim que ainda é um tanto ambíguo em hebraico. Ele ocorre apenas em Gênesis 37:3, 23, 32 e 2Samuel 13:18, 19.

[3] - H.G. Wells (1866–1946). A Short History of the World, 1922.

[4] – Cornfield e Freedman, p.31.

1 comentários:

André Luiz Marques disse...

Olá Hugo Hoffmann!
Também fico feliz em saber que tenho muitos amigos lutando pela causa da Criação, como você! Sou novo nestas coisas e por isso busco aprender mais e mais a cada dia. O seu blog está ajudando muito nisso, parabéns pelas postagens interessantes e úteis!

Sou adventista a pouco tempo, mas quero crescer espiritualmente a cada dia. Como o lema adventista diz que logo após conhecer a verdade, todos devem trabalhar na obra da evangelização, conforme os dons que cada um possui, assim estou tentando evangelizar como posso, escrevendo. Eu também ajudo a lecionar estudos bíblicos com um amigo da igreja aqui em Maringá, devo dizer que é muito gratificante tudo isso.

Você é maringaense de berço então é? Legal! Eu sou nascido em outra cidade paranaense, mas moro em Mgá por causa da faculdade que curso aqui. Bacana também saber que você é biólogo! visto que gosto muito desta ciência (biologia).

Com certeza podemos trocar informações sim, pois é isso que nos aperfeiçoa.

A propósito, recebi hoje uns comentários de um ateu que se identificou como "Eder" em meu blog e me pediu que mostrasse ao menos uma evidência da criação divina. Elaborei um apanhado geral de tudo que tenho conhecimento sobre o tema e enviei para o solicitante. Acho que vou publicar este apanhado geral que enviei para ele em meu blog nos próximos dias, esperarei ele ler e assistir alguns vídeos de estudos criacionistas que enviei por meio de links. Se ele for sincero e estudar tudo direitinho, no mínimo terá outra visão sobre o Criacionismo.

O bom disso tudo é que o blog (inalgurado a pouco tempo) já começa a surtir efeito nos céticos. Queria saber se você já foi desafiado assim por alguém em seu blog. Se não, a qualquer momento isso poderá ocorrer (o que é uma boa coisa, pois mexe com os críticos evolucionistas).

Foi um prazer receber seu comentário em meu blog! Que Deus continue a nos abençoar para prosseguirmos "na frente de batalha" contra os enganos de Satanás, sendo "a luz do mundo" e o "sal da terra"! Amém.