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Com esta terceira parte fechamos a série JOSÉ NO EGITO, espero, sinceramente, que tenham apreciado o texto e que os argumentos aqui demonstrados sirvam para fortalecer a vossa fé.
Quero reiterar que todo crédito sobre o texto deve ser dado ao Dr. Rodrigo P. Silva em seu livro Escavando a Verdade.
III.1 – O SONHO DO FARAÓ
Na saga de José, o rei do Egito simplesmente denominado “o faraó”, sem nenhum complemento nominal. Não há qualquer idenficação que esclareça de que faraó se trata. Isso talvez se deva ao fato da Bíblia seguir de perto o costume literário dos próprios escribas egípcios. É que nos tempos mais antigos, anteriores ao 9° século a.C., o faraó era, muitas vezes, mas não sempre, denominado apenas “o Faraó”, como se este fosse seu nome próprio. Mais à frente, porém, tal prática foi abolida nas inscrições e documentos por causa da confusão que ela criava. Então os escribas tornaram “obrigatória” a identificação do faraó todas as vezes que se referisse a sua pessoa.
Novamente a Bíblia obedece à mudança e, ao produzir livros posteriores a esse período, passa a identificar o faraó a que se refere, por exemplo:
Jeremias 46:2:
“Acerca do Egito, contra o exército de Faraó-Neco, rei do Egito, que estava junto ao rio Eufrates em Carquemis, ao qual feriu Nabucodonosor, rei de Babilônia, no ano quarto de Jeoiaquim, filho de Josias, rei de Judá.”
Jeremias 44:30:
“Assim diz o SENHOR: Eis que eu darei Faraó-Hofra, rei do Egito, na mão de seus inimigos, e na mão dos que procuram a sua morte; como entreguei Zedequias, rei de Judá, na mão de Nabucodonosor, rei de Babilônia, seu inimigo, e que procurava a sua morte.”
Entre outros.
Esse é outro indício de que a história de José não pode ter sido “criada” tardiamente como propõem os defensores da alta-crítica, senão ela identificaria o faraó conforme o costume corrente após o cativeiro.
Quanto aos sete anos de fome, aludidos no texto, é importante dizer que períodos de grande escassez, embora não fosse necessariamente comuns, ocorreram algumas vezes no antigo Egito. Por ser uma região desértica, sua agricultura não era medida tanto pelo volume da chuva, mas pela alta ou baixa do Nilo.
Rio Nilo
Apesar de ser um rio tranquilo que não se assemelhava àquela fúria fluvial do Tigre e Eufrates, o Nilo tinha uma performance variável como, aliás, é até hoje. Entre o período de cheia e seca o volume d’água de seu leito podia cair de 106.680 metros cúbicos por segundo para menos de 2.133. Isso, é claro, foi amenizado no século 20 com a construção de altas barragens em Assuã, a partir de 1964, mas antes suas correntezas se comportavam praticamente da mesma maneira que na antiguidade.
As águas mantinham-se baixas de meados de novembro (início do inverno) até maio, quando atingia seu ponto mais crítico. A partir dai, com a chegada do verão e o derretimento das geleiras do monte Kilimanjaro, o nível subia abruptamente e continuava alto até o ciclo seguinte.
Monte Kilimanjaro
Monte Kilimanjaro – Vista superior
Monte Kilimanjaro – Relevo e altitude do terreno
Porém, nem sempre foi assim. Houve alguns anos em que o período de baixa foi maior que o normal e a alta não veio com abundância fluvial esperada. Aí a agricultura ficava prejudicada e não havia colheita suficiente para abastecer todo o povo. Iniciava-se um ciclo de fome.
Os antigos egípcios estabeleceram marcos de pedra (nilômetros) às margens do rio para tentar predizer o seu comportamento a cada ano. Mas nem isso evitou determinadas tragédias. Temos, por exemplo, um relato escrito sobre a famosa pedra ou Estela da Fome, descoberta em Sehel, uma das ilhas amontoadas na primeira catarata do Nilo.
Nilômetro da Ilha de Elefantina
Nilômetro da Ilha de Elefantina – Vista externa
O texto da Estela da Fome é dos dias de Ptolomeu V, Epifânio (204-180 a.C.), mas faz referência a um episódio ocorrido 2.500 anos antes, no reinado de Djoser, da 3° Dinastia:
“Eu choro sobre o meu trono, todos no palácio estão em angústia (…) porque Hapi [o Nilo deificado em forma humana] tem falhado em sua tarefa. Num período de sete anos, o grão se tornou escasso e secou (…) todo homem está roubando seu semelhante (…) as crianças choram (…) o coração dos velhos está carente (…) os templos estão fechados, os santuários cobertos de pó. Todos estão em desgraça.” [1]
Estela da Fome, encontrada ao sul de Sehel
O sonho do faraó mostrava sete vacas gordas seguidas de sete vacas magras (Gn 41:1-36). Essa imagem parece fazer referência à deusa Hathor que era representada por uma vaca celestial.
Hathor e Seth
Era uma das mais importantes divindades do panteão egípcio, pois, entre outras coisas, era o símbolo da alimentação. [2] Talvez seja por isso que havia exatamente sete santuários ao longo do Nilo dedicados à sua glória e conhecidos como “as sete hathoras” ou “as sete vacas”.
O túmulo de Nefertari, no vale das rainhas, é ornamentado com o desenho de sete vacas e um touro celebrando a fartura de alimento trazida por Harthor.
Túmulo de Nefertari, mostrando as sete vacas (hathoras)
No Livro dos Mortos, famosa peça da literatura egípcia antiga, Osíris é representado num momento como um inválido, acompanhado por sete vacas magras que seriam um emblema da fome. Por outro lado, sete vacas gordas desenhadas num afresco da 18° Dinastia, hoje dispostas no Museu do Cairo, representavam, claramente os anos de fartura.
Papiro de Ani (Livro dos Mortos)
Os sete anos de fome também são mencionados em hieróglifos desenhados nas paredes de dois templos: o de Edfu (trono de Hórus) e o de Dendera (antigo palácio da deusa Hathor, posteriormente assimilada como Isis, a mãe de Horus).
Embora se tratem de referências tardias e remetam a acontecimentos cronologicamente distintos dos sete anos de fome interpretado por José, porque não assumir a hipótese de que essas menções sejam lembranças daquela tragédia que o folclore do povo misturou com outros acontecimentos? Seja como for, as semelhanças com o episódio bíblico são impressionantes.
Existe ainda uma inscrição tumular mencionada pelo egiptólogo Henrich Brugsch que merece ser destacada. Ela fala de um período de fome que mui provavelmente será o mesmo da história de José, Brugsch diz que esse texto foi escrito por ordem por um certo Baba, governador da cidade de El-Kab, sul de Tebas, que viveu durante a 17° Dinastia (contemporânea à 16° Dinastia no norte). Esse período, segundo certa cronologia, poderia abarcar parte do tempo em que José governou o Egito.
Cidade cercada de El-Kab, antiga capital do Alto Egito, porta de uma tumba.
O texto revela que aquilo que o governador hebreu fez pelo país, Baba fez por sua cidade – provavelmente seguindo as orientações que vinham de José. Ele diz:
“Eu recolhi o milho, como um amigo do deus da colheita. E quando a fome chegou, castigando [a terra] por muitos anos, eu distribuí o milho para a cidade durante todos os anos em que a fome durou”[7]
III.2 – SERIA JOSÉ?
Um série de escavações, conduzidas desde 1966 por Manfred Beitak [8] trouxe à luz o que, para muitos, teria sido o túmulo temporário de José no Egito, antes que seus ossos fossem transportados no saída do povo hebreu (Êxodo 13:19). O sítio abriga os restos de uma antiga Avaris (hoje Tell el-Dab’a), que era capital do Egito no período hicso.
Um setor especial da cidade apresenta o que seria um assentamento rural sem muros, repleto de pequenos cercados de alvenaria próprios para a criação de gado de corte e ovelhas. O esquema do sítio parece indicar uma vila formada principalmente por ovinocultores, que viviam em paz no Egito. Um bairro asiático nas terras do Nilo!
Mapa antigo mostrando a cidade de Tell el-Dab’a ao centro
Os quarteirões exibem alicerces típicos daqueles usados não para sustentar uma casa de tijolos, mas uma tenda retangular comum aos nômades de cultura pastoril. Ora, a criação de rebanhos era a principal atividade dos irmãos de José (Gênesis 47:3) e as tendas foram a morada dos hebreus desde os dias de Abraão até o estabelecimento da monarquia em Israel. Os patriarcas são sempre descritos como homens ricos que moravam em tendas, e mesmo depois do estabelecimento dos filhos de Jacó no Egito é possível que esse tenha sido o seu costume (Gênesis 13:2-4; 24:67; 26:12; 31:33; 35:21).
Nem todos os residentes, no entanto, moravam em tendas. O setor asiático de Tell el-Dab’a abrigava em meio às moradas um pequeno edifício oficial com estruturas bem acentuadas. Era o centro administrativo da região.
Dentro dele encontravam-se uma divisão de quatro quartos e uma tumba familiar pertencente ao dono da propriedade. As escavações dessa tumba duraram quatro anos para seremm concluídas (1984-1987). O que Bietak descobriu foi bastante sugestivo: dentro da tumba havia uma estátua quebrada de cor amarela, com os cabelos presos na forma de um cogumelo (indicativos claros da origem semita do indivíduo).
Estátua encontrada em um túmulo na cidade de Tell el-Dab’a (Avaris), data aproximadamente da 16° Dinastia, devido as características semitas, sendo atribuída ao vizier José.
Em sua mão ele trazia o cetro do faraônico especial, que nos leva a supor que se tratava de alguém muito importante no Egito, provavelmente o primeiro-ministro do rei. O arqueólogo Bryant Wood concluiu que:
“esta seria a primeira evidência material da presença dos hebreus no Egito”[9]
E vários outros autores, incluindo Beitak, sustentam que ali estaria a estátua do próprio José quando esteve no poder.
A ação de vandalismo que o artefato sofreu não é típica de ladrões de túmulos, mas de políticos do passado para apagar a memória de um governo opositor raspavam seus rostos e apagavam seus feitos das inscrições hieroglíficas. Vários soberanos sofreram este tipo de violência e hoje sabemos que o faraó Ahmose usou o mesmo artifício para omitir da história as glórias do governo hicso.
Infelizmente não podemos ainda afirmar, para longe de qualquer questionamento, que essas sejam realmente a casa e a tumba real do patriarca José. Não obstante, há vários indícios que apontam nessa direção e não podemos descartar a possibilidade de ter encontrado aqui em Tell el-Dab’a a confirmação arqueológica da morada de José e sua família nas terras do Egito.
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REFERÊNCIAS TEXTUAIS:
[1] – Tradução baseada em Miriam Lichtheim, Ancient Egyptian Literature: A book of readings (Berkeley: University of California Press, 1980), v.3, p.94-100. Parte entre colchete acrescentada.
[2] – Harthor como símbolo da alimentação é, as vezes, representada como uma figura feminina amamentando o deus Horus – representante de faraó. M. Brodick e A.A. Morton, p.73.
[3] – Para o texto das cartas veja ANET, p.482-490.
[4] – As datações egípcias variam, as vezes, em décadas de acordo com os autores, Paul Johnson, por exemplo, coloca a 18° dinastia começando em 1567 a.C., enquanto Byron E. Shafer a estabelece em 1539 a.C. Os anos fornecidos, portanto, são aproximações que não podem constituir uma cronologia absolutamente exata. Cf. Paul Johnson, p.52, e Byron E. Shafer e outros, As religiões no Egito Antigo: Deuses, Mitos e Rituais Domésticos (São Paulo: Nova Alexandria, 2002), p.246.
[5] – Alguns, no passado, confundiram shasu (terras estrangeiras) com shushu (pastores); por isso, alguns livros erroneamente traduzem hicsos como “pastores governantes”. Cf. M. Brodrick e A.A. Morton, Diccionario de Arqueologia Egípcia (Madri: Edimat Libros, 2000), p.76.
[6] – Thompson, J. A. The Bible and Archaeology. Grand Rapids, MI: Wm. B. Eerdmans Publishing Co., 1972.
[7] – Heinrich Brugsch, Egypt under the Pharaohs (Londres: Trafalgar Square, 1996), v.1, p.158.
[8] – Manfred Bietak, Avaris, the capital of the Hyksos: Recent Excavations at Tell el-Dab’a (London: British Museum Press, 1996).
[9] – Bryant G. Wood, New discoveries at Ramesses, Disponível em: http://abr.christiananswers.net/enews/jul2002.html Acesso em 3 de março de 2006.












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